Haja fé!

– Há um ano, já com o coronavírus a lavrar em Portugal, só 4% da população acreditava que a crise não se resolveria até finais de 2020. Quem me conhece, sabe que fundamento muito bem a minha opinião e não sou dado a “cantigas de escárnio e maldizer”. Na verdade, raro em Portugal, sempre preferi “cantigas de amigo”.

Foi assim que, eternamente desalinhado das “posições oficiais”, mas procurando evitar o pior, logo em março e abril de 2020 recomendei o uso obrigatório da máscara, a formação sanitária das populações e da proteção civil, a aplicação de planos de contingência adequados e até um gabinete de crise que pudesse orientar medidas imediatas e confinamentos dirigidos.

Tinha razão antes do tempo e nem o OM fez caso: durante mais de um ano, assisti a uma gestão caótica e até anedótica da pandemia, com consequências que, muitas delas evitáveis, foram desastrosas.

Um desempenho que me custa a entender, porque a estratégia para “tratar” uma qualquer pandemia não difere da que é usada em medicina intensiva, aquela que milhares de médicos exercem: perante um qualquer doente grave e instável, exigem-se permanentes “cuidados de cabeceira”, com correções ao minuto. Uma atuação que requer conhecimento técnico, mas também muita atenção e prudência e, sobretudo, a coragem para aplicar, no momento próprio, as medidas drásticas que se impõem.

Nesta área, não é possível ter sucesso a receitar a mesma pastilha a todos os doentes, por prazos a perder de vista… vivam eles ou morram.

Sob o foco político-mediático, esta seria sempre uma missão polémica e certamente difícil, até porque condicionada por um sem-fim de variáveis e incógnitas. Porém, sem dúvida, deveria ter sido conduzida dentro do princípio científico de que nenhuma certeza existe e que só chegaremos às melhores soluções por tentativas e erros, de preferência aprendendo com os erros dos outros e não a coxear atrás do nosso próprio prejuízo.

Um ano passou e há que assentar que Portugal, na ausência de medidas de prevenção adequadas, foi obrigado a um primeiro confinamento drástico, que pecou por má orientação e por tardio e demasiado longo, o que provocou acrescido impacto na economia. Para depois do verão, sem fazer o trabalho-de-casa, cair em tais erros que, de repente, de “bom aluno” passou a “pior do mundo”. Enquanto agora, submetido a mais um “tratamento de choque” que ainda se arrasta, já apresentar números que novamente estão entre os melhores. Somos mesmo bons em “efeitos especiais”…

Mas, então, que lições devemos retirar? Tão só que o nosso “autocarro” segue a direito pela estrada, sem que o “motorista” conheça o “código da estrada” ou, sequer, tenha a mínima noção de como manejar o volante, os travões ou o acelerador. Um “bate-e-foge” e um “pára-arranca-e-torna-a-bater”, só possível porque os portugueses continuam sob a alçada de interesses político-mediáticos que, sem contraditório, põem e dispõem da nossa vida, enquanto os alimentamos.

Não pertencendo à raça de quem até diz mal da sua própria sombra, sendo pelo contrário um lutador e um otimista, não tenho, contudo, qualquer dúvida em afirmar que o espaço da idiotice tem vindo a ficar mais estreito, tendo aparecido, finalmente, no último mês, orientações que, embora tímidas e tardias, apontam para uma condução menos desastrada do nosso “autocarro”.

Com os números que Portugal tem apresentado, e sendo o número de novos casos/dia o mais fiel e eficaz “oxímetro”, há semanas que Portugal poderia ter desconfinado o ensino pré-primário e setores da economia como ginásios, cabeleireiros, restauração e turismo interno. Com a garantia de que, em dez dias após essas “libertações”, e com base na eclosão de novos focos, concelho a concelho e atividade a atividade, podíamos “medir” impactos e adotar imediatas correções, “premiando ou castigando” os portugueses debaixo de apertado controlo de resultados.

Embora tenha optado por um trajeto muito mais moroso, e menos ousado do que aquele que tenho preconizado, não quero, no entanto, deixar de saudar as alterações que, nos últimos quinze dias, o novo “motorista deste autocarro” tem vindo a propor: pelo menos, garanto, tem “carta de condução”. O que é uma boa novidade!

Mas não resisto a duas perguntas: Quantos portugueses, em caso de doença, recorreriam aos cuidados dos anteriores responsáveis técnicos pelo “tratamento” da pandemia? E quantos aceitam que, para distribuir uma simples vacina que nos chega a conta-gotas, seja necessário “despromover” um prestigiado vice-almirante… a fiel de armazém?

Nem oito nem oitenta, haja fé!

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