Guerra na Ucrânia e os apoiantes de Putin

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Há já alguns dias que a Ucrânia foi invadida pelo regime russo e, no passar destes dias, e mesmo antes, levámos um duche de incríveis opiniões por parte de apoiantes europeus do regime de Putin. As suas tentativas de desculpabilização do regime russo são incríveis e estes ‘idiotas úteis’ vão desde a extrema direita até à extrema esquerda.

Uns dizem que a Ucrânia é tão culpada como a Rússia, porque a Ucrânia maltratava minorias russas nas suas fronteiras, ou que foi ela, juntamente com a NATO, que, ao ameaçar a posição estratégica russa, levou à sua própria invasão. Estas devem ser as mesmas pessoas que culpam uma mulher pela sua violação, dizendo que a culpa é dela por usar saia. Tanto na invasão do Iraque em 2003 como na da Polónia em 1939 (ambos estados com pior registo democrático do que a Ucrânia nas alturas respetivas) foram culpa do invasor, independentemente de se gostar do estado invadido ou não, isso é irrelevante. Portanto os mesmos espertos que gostam de criticar essas invasões que critiquem esta.

A verdade é que o regime russo se sente inseguro do ponto de vista militar por razões óbvias: a expansão da NATO e UE na Europa de leste, vendo a sua antiga esfera de influência ser desmantelada e ficando a Rússia mais exposta a uma invasão militar. Muitos criticam o Ocidente por esta expansão, esquecendo-se ou não querendo saber que, embora esta expansão seja obviamente do interesse militar da NATO no sentido de contrariar a influência da Rússia, nenhum país foi obrigado a juntar-se e qualquer pessoa que respeite a soberania dos estados e a sua capacidade de fazerem as suas escolhas de política externa não deve criticar esta expansão como se fosse uma invasão, quando na verdade consistiu na adesão livre de países oprimidos por 75 ou mais anos de domínio militar russo e que não desejam regressar a esse estatuto.

Muitos dirão: ah, mas os EUA não permitiriam que o Canadá se aliasse à Rússia e à China, é hipocrisia americana. A isto eu respondo que estas pessoas, se desculpam a Rússia então desculparam certamente os EUA, para não serem hipócritas… Se os americanos agem mal, isso de forma alguma desculpa outro estado de agir mal. Estas devem ser as pessoas que quando veem o irmão a fazer porcaria pensam que é ok fazer o mesmo porque o irmão fez também. Não tem muita lógica diga-se.

Outros (provavelmente até são sempre os mesmos) dirão ainda que os americanos engendraram toda esta crise para se tornarem o fornecedor de gás e petróleo preferencial da Europa. Obviamente que é do interesse americano que os europeus larguem a sua dependência energética da Rússia, mas não seria com esta crise diplomática que os americanos lá iam, simplesmente porque, em termos de gás – o combustível de transição energética predileto da UE – os EUA não se encontram nem de perto no top dos fornecedores. Aliás, se era esse o objetivo dos americanos, porque é que o presidente Biden (mal, a meu ver) retirou sanções à construção de um gasoduto que levaria gás natural diretamente até à Alemanha, o Nord Stream 2? É tanto o interesse em substituir a Rússia que até alimentam a dependência europeia nesta…

Por outro lado, os russos são os maiores fornecedores da Europa e conquistar parte da Ucrânia levaria a que o seu gás chegasse mais a oeste sem ter de pagar impostos. Acresce a isto que foram descobertos depósitos de combustíveis fósseis consideráveis em território ucraniano, já antes das invasões russas de 2014. Ora, o território terrestre e marítimo conquistado pela Rússia em 2014 tem jurisdição sobre parte desses depósitos e o conflito levou a que o investimento privado fosse escasso e que a Ucrânia não pudesse desenvolver essa exploração de recursos naturais, eliminando-se um possível competidor da Rússia. Interessante, não é?

Finalmente, há o argumento de que a autodeterminação das minorias russas deve ser respeitada e foi esta a razão pela qual a Rússia invadiu. Vamos por partes:

Sim, a autodeterminação, tal como a soberania e integridade dos estados, é importante. No entanto, não há razão para reconhecer aos separatistas o direito de falarem pelo povo cujo território controlam, até porque nenhum ato democrático, cuja democraticidade tenha sido comprovada, ocorreu. Acho que o governo ucraniano deveria ter permitido mais autonomia a estas regiões, mas caso tal fosse o desejo das mesmas, expresso num referendo com observadores internacionais. A autodeterminação e independência das populações nasce de um desejo destas de serem livres, não dos desejos de países estrangeiros ou grupos separatistas. Referendos de autonomia ou independência são a única possibilidade aceitável.

Assim, chegamos ao outro ponto, que é a Rússia estar apenas a defender minorias russas. Se esse fosse o objetivo, teriam apelado a referendos democráticos e não a invasões e insurreições. A Rússia quis apenas um pretexto, como se viu, para a invasão do resto da Ucrânia, até porque não concentrou os seus ataques no Donbass e vê como ilegítimo o governo ucraniano, não apenas o seu domínio sobre populações que acha que devem morar na Rússia. Para além do mais, se a invasão de qualquer país que trate mal minorias deva levar à invasão desse país, então estamos mal e vamos ter de invadir grande parte do mundo, repleto de regimes profundamente autocráticos, muito piores que quaisquer violações do Estado de Direito que a Ucrânia possa cometer.

Fica claro que estes argumentos de apoio à Rússia são pura treta. Mas, porque é que tanta extrema direita e extrema esquerda apoiam Putin. Os de extrema direita são, muitas vezes, financiados pelo seu regime numa tentativa de destruir a capacidade das democracias liberais em se oporem à Rússia. Para além do mais, muitas dessas pessoas veem na ditadura conservadora e etno-nacionalista de Putin um regime desejável. Quanto aos de extrema esquerda, uma cegueira anti-americana leva-os a achar imediatamente que a culpa é da NATO em todas as situações e que a Ucrânia é que levou à sua própria invasão, ficando do mesmo lado que o maior financiador da extrema direita europeia. Amigos improváveis realmente.

Quero terminar por dizer que desejo um fim rápido desta guerra via um tratado de paz que respeite a soberania da Ucrânia e o desejo do seu povo em pertencer ou não a qualquer instituição supranacional. E digo já: se escolherem aliar-se à Rússia livremente, não serei hipócrita e desejar uma invasão da Ucrânia por essa razão, ainda que seja um claro risco de segurança para vizinhos da NATO. Espero também que a loucura de Putin não nos aproxime ainda mais do conflito nuclear, porque ninguém necessita de algo assim. O mundo está muito melhor sem perigo existencial.

Escrito por: Henrique Eira

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