Nas três últimas décadas, a PT (Portugal Telecom) foi o modelo que todas as empresas nacionais pretenderam copiar, emulando os seus gestores. Ansiava ser um actor relevante no plano global, pretendendo posicionar-se de modo a ter um papel fundamental na economia global e, em especial, em todo o mundo lusófono. Beneficiou até de uma isenção fiscal de 300 milhões de euros em impostos na fusão com a empresa brasileira Oi.
Em 2010, antes de o Estado nela desbaratar a “golden share” e a posição maioritária que detinha, a PT continuava a ser considerada a empresa ponta de lança da tecnologia e da gestão nacional. 
Nos últimos dez anos, a PT distribuiu pelos seus accionistas, através de dividendos, mais de 8 mil milhões de euros, e pagou nesse mesmo período mais de 300 milhões de euros em remunerações e compensações diversas aos seus quadros dirigentes, nomeadamente a Zeinal Bava e Henrique Granadeiro. Nesse mesmo período, a empresa perdeu cerca de 90% do seu valor.

Em meados de Janeiro do presente ano, confirmou-se o que já se antecipava: os accionistas aprovaram a venda da PT Portugal à empresa francesa ALTICE. Mais de 80% do capital social, representado na Assembleia de Accionistas, aprovou a venda. O valor que a ALTICE vai pagar é, sensivelmente, 60% do valor máximo alcançado pela PT em negociação na Bolsa nacional.
Foram cinco anos desde 2010. Nesse espaço de tempo, a empresa não deixou de inovar, manter-se na vanguarda da tecnologia e realizando campanhas de marketing que continuam a ser uma referência nacional. Nesse espaço de tempo, a empresa e os seus trabalhadores mereceram a admiração e o apoio dos seus clientes e dos portugueses em geral. Os governos apoiaram a empresa de uma forma empenhada. Nós, cidadãos, abdicámos de mais de 300 milhões de euros em impostos com a fusão da PT/Oi.
Escandalosamente, toda esta trajectória foi defraudada, deixando que a empresa perdesse cerca de 90% do seu valor. Nós, cidadãos, fomos defraudados em 2010 e somos defraudados agora em 2015 por uma empresa privada que abusou dos apoios que o nosso Estado lhe concedeu.
Nós, cidadãos, flagelados pela carga fiscal da austeridade, cada vez menos eficaz, assistimos com indignação à ingratidão por parte dos accionistas que sempre encontraram no governo e no povo português um apoio incondicional. Há aqui matéria mais do que suficiente para uma providência cautelar contra a venda da PT.
Diz-se que o dinheiro não tem pátria; mas mesmo o capitalismo exige ética.
“Nós, Cidadãos!” irá bater-se para que, no futuro, não mais sejam atropelados os deveres de cidadania e que os gestores de qualquer empresa com responsabilidades sociais não mais atraiçoem assim a sociedade e a pátria que os faz viver.

Lisboa, 27 de Janeiro de 2015

Nós, Cidadãos!