«Beira Litoral» é uma designação administrativa ultrapassada, centrada na cidade de Coimbra e integrando atualmente as sub-regiões NUTS III do Baixo Mondego, Pinhal Interior Norte e Sul e Litoral.

O Baixo Mondego tem 2062 km2, 332 306 habitantes e dez concelhos. O Pinhal Interior Norte tem uma área de 2617 km2 e 131 371 habitantes e catorze concelhos. O Pinhal Interior Sul tem 1903 km2 e 40 705 habitantes em quatro concelhos. O Pinhal Litoral tem 1741 km2 e 260 924 habitantes e cinco concelhos. Números por alto: 760 000 habitantes em 8200 km2.

O atualmente designado «Sistema Metropolitano Litoral», forma uma faixa entre Leiria a Sul e Aveiro a Norte — com Coimbra em posição central — fortemente estruturada pela vias de comunicação das autoestradas A8, A1 e Pinhal interior e linhas ferroviárias do Norte e do Oeste. Fortemente condicionada pela barreira do sistema montanhoso da Serra da Estrela, a região tem uma interação com um Litoral desordenado que ainda não corresponde às potencialidades.

A projeção para fora das fronteiras encontraria um canal importante na ligação ferroviária da linha da Beira Alta, que tem origem na Figueira da Foz, e nas vias rápidas IP3 e A25.

Tentou-se nos últimos ministérios da monarquia constitucional traçar com a Linha da Lousã um arco para o interior que estruturaria um importante hinterland industrial com o circuito Coimbra-Lousã-Serpins- Gois-Arganil-Santa Comba Dão-Mealhada-Figueira da Foz-Coimbra; seria uma circulação em cintura extremamente interessante, como a linha de Cintura de Lisboa, ou o círculo da Linha do Baixo Vouga, Aveiro-Águeda-Albergaria-São João da Madeira-Espinho–Aveiro. Mas a Linha da Lousã perdeu continuidade, com a bancarrota de 1890 e com a própria República em 1910.

Falhou a insistência de Coimbra em se identificar com a zona de Aveiro, e também com o hinterland do Vale do Vouga até Viseu. Em alternativa à rejeição de Aveiro, Coimbra ainda não se identificou a Sul com a mancha industrial Leiria-Marinha Grande, que fechando um circulo litoral com a Figueira da Foz criaria as condições para uma região económica com consistência de planeamento e forte proximidade à área metropolitana de Lisboa, grande consumidora, ativa uma centralidade administrativa na tradicional capital do Centro.

O sistema metropolitano litoral foi uma das zonas em que mais dificilmente se obteve consenso para a formação de uma região económica, fruto de uma falta de diálogo entre o litoral, o interior e Coimbra situada numa zona intermédia.

Dotada em tempos de um litoral com um recorte muito mais rico até ao século XVI através da lagoa da Pederneira entre Nazaré e Alcobaça, a bacia do Mondego e a ria de Aveiro, a região viu ficar assoreado fortemente este recorte e as suas relações económicas entre o mar e a agricultura. Mais uma vez, como noutras regiões, registamos um interior de cobertura florestal (Pinhal Interior) divorciado de um litoral que cortou gradualmente as suas relações com o mar.

Num raio de meia centena de quilómetros encontramos uma variedade espantosa de cenários naturais, orla marítima, portos, serras, lagoas e canais de rega quase milenários (canal de Soure). A oferta turística é incalculável mas está claramente ainda subaproveitada na sua variedade face a outras regiões comparáveis.

Coimbra é uma cidade de importância histórica — já foi condado e antes de Lisboa foi capital de Portugal — mas que tem vindo a ver ameaçada a sua posição administrativa para outras centralidades. A proximidade de Conimbriga assinala a importância da confluência de rotas romanas centrada, então, na riqueza agrícola da região. Coimbra conserva o prestígio da sua universidade e complexo hospitalar. Coimbra é, de facto, a universidade das Beiras, funcionando como mecanismo de promoção social de estudantes provindos do interior que, através da empregabilidade dos serviços, depois se instalam no Porto e em especial em Lisboa. Contudo, concentrada numa perspetiva académica e de conhecimento teórico, a «Lusa Atenas» não se articulou com a sua periferia e por conseguinte não criou uma área metropolitana a exemplo de Lisboa, Porto ou mesmo Faro-Loulé-Albufeira.

Coimbra sempre se alimentou muito do elemento cripto-judaico das Beiras e Trás-os-Montes mas sempre lhes devolveu pouco. Durante séculos foi a origem das elites governativas de todo o reino e da república. Significativamente, trata-se de uma capital beirã que não tem sotaque beirão, mas um português académico e depurado que ensina aos outros e que se tornou padrão nacional

Recentemente, deixou perder uma linha ferroviária suburbana de proximidade, e com poucas possibilidades a médio prazo de a recuperar. Essa linha da Lousã, na origem financiada por capitais locais, teve término em Serpins, não sendo continuado o objetivo inicial de ligação a Castelo Branco.

Outro dos grandes investimentos da região foi o regadio do Baixo Mondego de grande importância nacional. Para além do interesse pela obra hidráulica, a academia não dedica importância suficiente ao desenvolvimento agrário, agroindustrial, e agro pecuária da sua periferia beirã.

A importância do PIB da região em atividades agrícolas mineiras e setor primário está reduzida à expressão mínima, próxima dos 2%. A contribuição da Indústria, outrora mais importante, está muito reduzida, oferecendo os parques industriais de Souselas e da Adémia uma perspetiva reduzida.

As próprias margens da linha ferroviária do Norte e da estrada IC-2 (ex EN-1) não são animadoras, com um cenário de abandono industrial generalizado.

O seu porto natural, a Figueira da Foz, está prestes a perder duas ligações ferroviárias vitais — linha do Oeste e linha da Beira Alta — sem ter ainda fundamentado a necessidade de reconversão.  Também esta cidade litoral, industrial e portuária perde economia, afirmação urbana e população.

Surgiram focos importantes de indústria de elevada conetividade na região interior de Leiria, mas esta última cidade não se identifica tanto com Coimbra como o faz com Lisboa, grande consumidora. O litoral de Aveiro ligou-se naturalmente a outros sistemas da área
metropolitana do Porto e ao hinterland Beira-Viseu, com o sucesso de ter atingido o milhão de habitantes, e será dificilmente parte de uma centralidade coimbrã.

O ressurgimento da «Capital do Conhecimento», mais vocacionada para o sul da sua região natural, só será possível mediante o reconhecimento do território que a rodeia e as suas potencialidades naturais, científicas e humanas e mediante os circuitos que terá de desenhar e fechar para uma concretização de desenvolvimento.

A captação das centralidades de Leiria e Fátima, terceiro destino turístico do país, conjuntamente com a Figueira da Foz, valorizando a excelente rede de comunicações entretanto abandonadas, redirigindo as capacidades cientificas e tecnológicas de Coimbra e a sua boa proximidade às Zonas Metropolitanas de Lisboa e Madrid poderão, no futuro, ser a saída para uma fortíssima área metropolitana sem pontos fracos e a enfrentar desafios Mundiais. Coimbra e o «seu» litoral necessitam urgentemente de uma visão estratégica congregadora do muito que já tem.

O futuro permite falar de uma fortíssima área metropolitana sem pontos fracos e sólida na sua sustentação perante os novos desafios Mundiais. Coimbra e o «seu» litoral necessitam urgentemente de uma visão estratégica congregadora do muito que já tem.